sexta-feira, 9 de abril de 2010

Não se meta com uma grávida

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É o velho clichê: sim, a gravidez é um momento único na vida de uma mulher (pelo menos das que ficam felizes com a ideia de ter um filho). Mas por quê será que ficamos tão irritadas nesta fase? Muitas pessoas colocam a culpa nas altas taxas de hormônio que circulam no nosso corpo durante a gestação, mas sempre achei desculpa esfarrapada a dessas mulheres que acordam de mau-humor, com raiva do mundo e colocam a culpa na TPM para aliviar suas consciências-pós-xilique. Acredito sim que nós ficamos um pouco mais sensíveis, inchadas e doloridas pela ação hormonal, porém, tenho minhas dúvidas se a TPM realmente existe nessa proporção exagerada que a pintam ou se é um pouco psicossomática.
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O fato é que no começo da gestação, minha irritação se limitava às pessoas próximas (namorado, mãe, pai, irmãs, cachorro...). Só que aos poucos minha bronca foi expandido seus limites e o que (também) passou a me deixar meio irritada foram os muitos palpites que a gente ouve na gravidez. Coisas como o que fazer com seu filho, o que não fazer, alguma ou outra alfinetada porque julgam que a gente tá se precipitando com alguma coisa... Eu gosto muito de ouvir os conselhos das minhas amigas ex-grávidas (me sinto uma privilegiada por ter tantas para me ajudar com as dúvidas), mas quando a dica vem de alguém com quem não tenho muita intimidade, fico absurdamente irritada. Mas esse tipo de coisa aprendi a deixar que entre por um ouvido e saia pelo outro.
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Depois, o que passou a me irritar foi o trânsito de São Paulo. E não estou falando daquele “nervosinho básico” que todo paulistano diz sentir todos os dias, não. Comecei a sentir uma raiva tremenda de ficar horas presa em engarrafamentos para conseguir chegar a um lugar, dos motoristas folgados, dos motoqueiros... Hum, os motoqueiros. Um dia aí, até cheguei a xingar um deles de “seu cavalo-espírito-de-porco”, só porque ele bateu no meu retrovisor. Fui inconsequente, eu sei, mas na hora nem pensei nisso. Falei com tanta veemência que o cara até virou o pescoço pra ver quem era a dona da voz de tão brutas palavras! E ele ainda me pediu desculpas.
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Depois do trânsito, foi a faculdade. A superlotação daquela faculdade (a FFLCH é a maior unidade da USP em termos de espaço físico, cursos oferecidos e número de professores, graduandos, mestrandos e doutorandos). O estacionamento sempre lotado daquela faculdade. Os bebedouros daquela faculdade, que nunca tem água. E até os banheiros da faculdade, pois dois deles estão em reforma, o que nos obriga a dar uma volta imensa. Mas a gota d’água foi um dia em que cheguei atrasada para a aula de Literatura Brasileira III (por causa do trânsito, claro). E a FFLCH tem sérios problemas de carteiras, é comum a gente chegar em algumas salas de aula e não ter cadeiras disponíveis, adivinhem por qual motivo? Superlotação. E justo nesse dia a sala estava lotada, acho que não cabia mais um fio de cabelo ali dentro.
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Cheguei, dei uma boa olhada, e não encontrei um lugar. Muitos ficaram me olhando. Achei péssimo ter que procurar cadeira no corredor e saí da sala. Foi quando me veio uma pergunta à cabeça: Poxa, mas será que nenhum marmanjo folgado se tocou que estou barriguda, esbaforida, com os pés inchados (naquele dia fazia um calor infernal) e cheia de livros nos braços? Será que ninguém poderia ter o bom senso de me ceder o lugar? Nesse dia fiquei tão indignada que até tive uma crise de choro no banheiro (mulherices!). Depois lavei o rosto e melhorei, mas aquilo realmente me indignou, já que o discurso entre os alunos da FFLCH é o da "consciência, da solidariedade entre as pessoas e a luta pelos direitos das minorias". Enfim, naquele dia confirmei o que sempre “suspeitei”: toda essa consciência não passa de papinho furado. Hoje me parece que quanto maior o grau de instrução de uma pessoa, mais alienada pros problemas reais do dia-a-dia ela se torna. Tanta letra não pode dar inteligência, sensibilidade e bom senso pra ninguém.
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Mas agora estou aqui, calma, lúcida e escrevendo este texto. Ainda tento entender se isso é mesmo “raiva gestacional” ou é da idade, pois dizem que com o passar dos anos nos tornamos mais cri-cris. Será este mais um mito do povo? Não sei... O fato é que a gravidez aumentou o poder da minha ira em uns 1000%, e é melhor que ninguém duvide disto.

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